A melhor de todas: Wings for Life World Run (Santiago)

O que é?

Morro de falar dela para todos os meus amigos. O formato "largou, correu, chegou" já saturou muitos de nós e mesmo os não saturados, já mais ou menos sabem como vai ser a prova, uma vez que o treinamento bem conduzido elimina parte do fator surpresa desses eventos. Na Wings, a linha de chegada larga após a gente, representada por um Carro Perseguidor (Catcher Car), você fica na prova enquanto estiver a frente dele. Para a prova ter um fim ele vai aumentando sua velocidade gradativamente, mas as meia hora de vantagem que temos até a largada dele é quem dita o quão longe podemos ir. No site há uma calculadora de metas para projetarmos o quanto aguentamos correr com base ou em pace ou em distância, mais uma prova de que a WFL é democrática e permite a qualquer tipo de corredor em qualquer nível de condicionamento participar. O esquema é esse aí embaixo e embora os mapas prevejam 100k de prova, duvido muito que alguém rode 3'30''/km toda essa distância, mesmo tendo o ultramaratonista italiano Calciaterra, especialista nos 100k, chegado bem perto esse ano com 88,3 para 3'47'' até que fosse coroado campeão mundial e recordista da prova que antes chegara "apenas" a 79,8km para quase 3'50'' de pace médio. 
8:00 – INÍCIO DA CORRIDA
8:30 – CARRO SEGUIDOR ENTRA NA CORRIDA – VELOCIDADE de 15km/h (aprox. 9.3 mph)
9:30 – VELOCIDADE AUMENTA: 16km/h (9,94 mph)
10.30 – VELOCIDADE AUMENTA: 17km/h (10.56 mph)
11.30 – VELOCIDADE AUMENTA: 20km/h (12.43 mph)
13:30 – VELOCIDADE AUMENTA: 35km/h (aprox. 21.75 mph) até que o ultimo participante seja ultrapassado.

Pré-Prova

A partir de outubro começamos a ser bombardeados na mídia com as cidades confirmadas para sediar a prova. Se ela fosse um circuito como a Rock'n Roll, talvez conseguíssemos fazer umas duas, três no ano, mas por ser simultânea, ficamos limitados a realmente conhecer umas das cerca de 35 cidades de cada vez. Por termos as opções do Brasil zeradas, tendo já feito Floripa e BSB, optei por Chile por ser mais barato e por ter boas referências desse lugar vindas de outros corredores. Atrair um grupo de amigos para ir junto deu mais trabalho, mas dessa vez o pessoal aderiu em peso e tive uma experiência sensacional. O gasto com inscrições chegou perto das cem Dilmas (ou Temers?) e passagens em promoção para o Chile chovem nos sites. Preferimos comprar trechos domésticos separados de internacionais e fomos para o Rio, descansamos um pouco e voltamos por São Paulo para completar o rolê, já que pouco adiantaria chegar em SSA logo se não teríamos trabalho a fazer. 

Altitude, temperatura e altimetria foram estudados todo o tempo e a planilha focou mais em intensidade que volume, uma vez que bater o que fiz ano passado era relativamente simples. O que dava trabalho era passar disso e lidar com o desgaste físico da longa distância somada a velocidade imprimida. Seriam apenas 0,4kph adicionados as 12kph que já corro regularmente, mas adicionar isso as 2h26 necessárias para que eu batesse os 30k era o desafio maior dessa edição. As viagens foram pouco cansativas, notei maior conforto nos vôos internacionais e também menos estresse acerca de segurança e transporte público quando ultrapassamos a fronteira. Reservar tudo foi super fácil com os sites booking e trip advisor nos ajudando com as avaliações de visitantes a Santiago guiando acerca do que evitar e do que procurar fazer.
Peralva Team unido
Os kits foram entregues num lugar relativamente longe da cidade. Ganhamos adesivos, broches, a linda camisa da puma e uns Redbull. A arena tinha também um simulador do Catcher Car para que competíssemos contra ele ludicamente. O shopping tinha preços parecidos com os do Brasil, valeu para quem quis géis mais baratos; comprei GU por preço de Vitafor e saí ganhando. Contudo, adiantou nada um pré-corrida tão lindo se no dia D eles anunciaram que não haveria medalhas finisher para Santiago. Para não perder o espaço no porta medalhas e manter a sequência, pus o broche numa fita e meus registros da Wings não foram perdidos.

The big day
24h antes da largada

O medo do frio foi batido no dia anterior. Saí para um simples trote com um amigo e em 30' percebi a necessidade de algo que cobrisse a cabeça sempre raspada e a opção das luvas, que preferi usar só para a mente não começar a procurar dificuldade caso fizesse menos que 13 graus no dia da prova. Mantive o short curto e preferi usar um de compressão por baixo apenas para evitar as assaduras. Confesso que se tivesse onde por os géis e sachês de sal, iria de sunga, como faço no Brasil. A largada dá-se pontualmente no mundo inteiro e ainda era noite quando a prova começou, pois amanhece por volta de 8:30 no Chile. A conta era simples e o cálculo mais ainda; para que o pace médio fosse dos 4'52'' necessários para os 30k, eu deveria largar a 5'07'' e tirar um mísero segundo por volta. Foi difícil segurar os primeiros 8k tão distante do que rodo aqui, mas o auto conhecimento permitiu paciência para lidar com esse furor inicial das pessoas me passando. Após ele, comecei a fazer o que estava acostumado dos treinos em Salvador e o frio e altimetria me levavam rumo a meta de maneira fácil demais para ser verdade. Nós da equipe sabíamos mais ou menos o quanto cada um rodaria e a torcida pelo próximo foi mais forte que a tensão de estarmos em outro país sem saber para que lado atirar caso a corrida começasse a ser solitária como a Wings costuma ser após certos km.
Foto do Facebook oficial da Wings for Life World Run Santiago
Na falta de Léo, Rezak e Magoolin, paguei $6 nesse único registro meu em movimento pelo goshot.cl
Para essa prova as pessoas costumam ter metas redondas. De 5 em 5 quilômetros não são poucas as pessoas que simplesmente param nas placas, tiram selfies e esperam o Catcher Car aparecer, seguido dos ônibus que os encaminham novamente a largada. Vi isso no 15k e me assustei. Eram pessoas que estavam sub 4'50'' e simplesmente esperariam ao menos meia hora parados para que o carro os alcançasse, contudo aplaudi a humildade em não irem adiante em algo que não tinham certeza de êxito; por menos que isso pessoas morrem em provas aqui ou se traumatizam após quebras pondo a culpa em mil fatores e nunca em sua própria teimosia. No 20 e 21 vi mais grupos se desfazendo e comecei minha odisseia em buscas dos mais fortes que possivelmente passariam no 25 para menos que 5'/km e já vislumbrando a solidão dos menos que 100 atletas que chegariam a marca dos 30k. Como nem tudo é belo, no 24 a uniformidade das voltas foi totalmente desfeita; algo que percebi no frio é que a quebra não é gradual como no calor... quando ela vêm, ela vem MESMO. O km 25 foi 1' mais lento e o 26 foi caminhando, até que percebesse que ao menos bateria os 26 baixos de 2015 e dei pequenos tiros até chegar a placa de 27km e ser apanhado pelo carrinho a menos que 120m dela. Engraçado é que do km8 em diante me recordo de ter sido ultrapassado uma ou duas vezes. Fiz realmente uma corrida progressiva, no entanto, nessa quebra, vi ao menos umas 15 pessoas ganharem as posições que roubara cedo; a corrida é um lance cruel: quem nunca "chutou cachorro morto" e ficou feliz que atire a primeira pedra. Deu para gravar um vídeo legal desse bote do Catcher Car, a parte em alemão (língua da organização da prova) diz "Obrigado, nos vemos no Canadá ano que vem", mas já estamos pondo em prática uma cidade mais barata e tão linda quanto para substituir a cara corrida em Niagara Falls. Após sermos pegos, o bus nos levou a largada e assistimos ao final da corrida em todo mundo num telão em uma área com calefação, lanches, RedBull, água e frutas a vontade.
Emoção de Naná e Sheyna; não tem quem não se supere nesse dia.

Também fiz meu selfie

Santiago

Brasileiros bagunçando na Plaza de la Moneda


Panorâmica do dia nascendo pouco após as 8 em Santiago
Curtimos bastante a cidade. As referências foram bem dadas e não passamos nem fome, nem frio graças aos amigos que foram lá nos anos anteriores para correr ou não. Recomendamos que fiquem próximos ao Palácio da Moeda pois de lá para qualquer ponto da cidade levam menos que 20' ou uma corrida de táxi de no máximo 5000CLP ou 25R$, desde que o taxista não seja nenhum golpista, como uns dois que pegamos, mas nossa baianidade não permitiu que fossemos enrolados mais que uma vez. Perto delá estão as casas de câmbio mais baratas também, vale lembrar. A polícia tem sua concentração lá perto, contudo, não são confiáveis: me trolaram com força e caminhei por 1:30 sábado buscando meu hotel que estava a 6' de onde falei com eles. As comidas parecem bastante com as daqui e caso queiram evitar os mariscos, optem pelas hamburguerias e pizzarias que servem as tradicionais massas que nós, maratonistas, adoramos. Vinho é sem igual lá e também os passeios turísticos são de tirar o fôlego. Pátio Bella Vista para uma a noite mais romântica, Mercado Central para um barulho com amigos, Andes ou Cajon del Maipo para ver a Suíça da América do Sul e Sky Costanera para ver até o Atacama do prédio mais alto da América Latina.
Chegando ao Cajón (Canion) del Maipo, ainda em roupas de "verão"

Embase El Yeso no Canion del Maipo. 8 graus deliciosos, mesmo com o sol lascando.

Próxima edição

Para a próxima Wings queremos subir mais. Plano inicial era o Canadá, mas as etapas americanas parecem ser mais baratas e por ter uma demanda grande, bombam em possibilidades de hospedagem e rolês maiores. Além de ser mais fácil em termos legais. Caso empene, tem Lima com sua etapa também downhill e com o aumento colossal em inscrições aposto que abram cidades legais como Buenos Aires e talvez outra Brasileira, já que as críticas a BSB foram bem legais esse ano. Me arrependo de ter tirado apenas cinco dias de folga, isso também é algo para ser trabalhado para o ano seguinte. Na véspera da prova fazemos pouca coisa que gasta energia, então outra meta é passar mais dias após a prova nas cidades... enfim, é calibrar o running tour para não deixar nada a desejar nem na corrida nem no rolê dentro da cidade alvo.

Metas futuras

Dia 24 começa o Circuito Baiano de Corridas de Rua. Esse ano querem uns tempos legais nas provas curtas, que deixo a desejar desde que comecei a correr. O treino também é mais simples, mesmo que mais duro. A Maratona de Buenos Aires deve ser cortada e torço para que Salvador abra inscrições para a daqui para que não passe um ano sem meus amados 42. O que vier, vou postando. Sempre revisando as provas que faço para vocês e sem fins lucrativos. Até mais!

Comentários

  1. Isso aí, Ivan! Pretendo ir lá nas minhas férias de agosto. Quero dicas!! Beijão e parabéns pela corrida!

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    1. Tem a nossa cara lá. Vc vai se entediar de educação, cultura e coisas bonitas. Merecemos! Marcamos uma torta e falo tdo

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Seus comentários e visitas me inspiram muito sempre que corro: bons treinos, provas e mudanças de vida para vocês também. Thanks!