Semana bem corrida: Maratonas de Buenos Aires e Salvador

Queria escrever um post sobre cada um desses eventos... Na verdade, uns três para falar de Buenos Aires como ela merece, mas em tempos de crise a gente se vira como dá e preferi também dar brilho para a Maratona de Salvador, nosso evento que prometeu bastante no marketing, que torço bastante para que melhore seu chato percurso e que vire referência ao menos no NE, já que dificilmente alguém vai bater no potencial turístico de RJ e na infra estrutura das provas de São Paulo. Quem quiser saber apenas de uma delas, pode resumir sua leitura a apenas um dos dois textos abaixo.

MARATONA DE BUENOS AIRES

Recomendo a todos voos diurnos: perder a noite indo, algumas refeições até chegar lá e dormir quebrado o primeiro dia de viagem minam um pouco o atleta. Também pensem em escolher o Aeroparque e  não Ezeiza, aero mais distante e que onera muito na hora do taxi/uber. A entrega de kits foi num lugar de fácil acesso e peguei com pouco tumulto. Achamos a camisa uma das piores já recebidas em corridas nesses 5 anos de esporte... já o  resto do kit tinha mimos legais com uns lanchinhos que até hoje quebram galho em minhas andanças. A ida para a largada pode ser feita tanto de táxi/uber, mas pelo segundo ainda não ser bem difundido, os preços ficam multiplicados com mais frequência que aqui, logo, o taxi se torna a melhor pedida. 

A PROVA

Por mais que o horário assuste, 7h na Argentina ainda está frio pra incomodar (13º graus no Domingo). Cerca de dez mil pessoas, separadas em baias por ritmo previamente escolhido por nós mesmos largaram e em menos que 3' nós passamos pelo tapete de cronometragem, a avenida larga foi fundamental para que isso ocorresse... sei bem o que é largar esmagado e em provas com bem menos pessoas. A prova foi incrivelmente plana a ponto de usar nossos quadriceps mais que as provas com eventuais sobe-desces, já sabia que acordaria quebrado nos dias seguintes por esse estímulo atípico ao lembrar que no Chile corremos 'downhill' e meus quadriceps prestaram para nada por dias!

O ritmo esperado para as 4h é de 5'38''/km, já que a maratona deveria constar de 42,195m. Mas já cedo os GPS davam cerca de 150-200m a mais e já esperava algo perto dos 43km na chegada, o que minaria o sub 4h, mesmo tendo feito a prova perfeita. Forçar mais que isso seria entrar em território desconhecido... eu me garantia correndo bem até mais ou menos 3h e pouquinho de prova, o que viria depois disso seria totalmente novidade para mim... No km 30 ainda estava bem, no 32 já senti que viriam 10k no limite e que já deveria formular planos B e C para terminar mais feliz que sofrendo. A marca das 3h veio com crueldade e corpo já começava a sentir o tal "muro"... É claro que é mais psicológico que físico... ver os amigos de pista sofrendo te fazem calcular quando vai ser a sua hora e fui forte até que deixasse o peso das pernas sem mudar muito o ritmo por km. Perdi a companhia de Bruno, aluno de Renato Maia, por volta do km 34, a energia de um ajudando o outro faz até a gente esquecer as dores das longas horas de exercício e depois daí comecei a perder um pouco o controle do ritmo, já bem cansado e sem ter o que fazer para mitigar isso. A hidratação e frutas foram distribuídas sem falhas e o empenho deles em facilitar as coisas foi um grande diferencial, vide as frutas cortadas e líquidos em copos (embora não goste).
A chegada. www.fotorun.com.ar
O km 41 nos brindou com uma subida chata em frente ao estádio do River, elejo esse o momento mais alto da prova, pq a dificuldade do trecho é anulada pela emoção em saber que falta pouco mais que 1km para o final da prova. Fiz força na descida seguinte e nesse trecho também tivemos bastante público bem pertinho da finish line. É óbvio que contra a lógica não há fantasia e a energia do tiro tem duração limitada... quando a gente lembra que se arrastou a 10kph durante os últimos km, dar tiro para 12-13 kph é a certeza de que podemos terminar engatinhando e logo me segurei no meio da apoteótica chegada bem larga, estilo Berlim e similares que eles criaram para a gente. No fim, 4h08 tanto no Garmin quanto no site oficial e mais 42,500m pra conta. Contudo, em outros relógios a prova chegou a 42,900m!!! Sete minutos abaixo de minha melhor maratona e a certeza de que ao menos o que acontece entre o km 41 e o 42 faz valer os meses de treino, o investimento financeiro e espiritual de enfrentar barreiras culturais ao atravessar países e todos os pensamentos negativos que nos cercam ao pensarmos em passar por tudo isso novamente. Recomendo BsAs para todos, independente do nível técnico; tive amigos sub 3h, amigos 5h e os "normais" 3h30-4h... É para todos os gostos e com um padrão de qualidade que merecemos muito e não estamos habituados.

MARATONA DE SALVADOR

Marketing agressivo, kit legal e mimos raramente vistos por todos nós: treinão de assessorias, jantar de massas, loja alusiva, estacionamento em shopping bem localizado e transmissão na TV. Será que chegou a hora de Salvador chegar ao nível de RJ e SP em qualidade esportiva para uma prova de 42km? Eu espero muito que sim e não fiquei (muito) decepcionado com o que vi em SSA logo após o meu teto de qualidade ter sido restabelecido com a Maratona de Buenos Aires. O pré-prova em pouco decepcionou e mesmo os que se queixaram das inscrições limitadas que rapidamente se esgotaram deveriam usar a mesma rapidez que usam para se inscrever em eventos mais badalados para fazer essa prova aqui. 42km envolvem treino e organização e não ter a inscrição neles (item principal para esse binômio) faltando um mês para o grande dia e já tendo feito os treinos mais importantes é, no mínimo, um grande vacilo. Pro RJ, pras provas gringas... sempre aceleramos o passo: pq fazer diferente na prova em que vc terá o menor dos investimentos a fazer, a que ocorre do lado de sua casa?

A prova

A largada foi pontual, as 5h31 já tínhamos largado. A tentativa de driblar o sol antecipando a largada em duas horas foi boa enquanto ele não tinha ido bater o ponto. Após o seu nascer, tudo voltou ao normal e fomos castigados pelo mormaço do combo calor + umidade. O plano era apenas soltar as pernas dos 42 da semana anterior e larguei para administrar um ritmo que me permitisse terminar crescendo e não caindo de ritmo. Como resultado igualei o tempo das outras meias maratonas desse ano e fiquei bastante orgulhoso do meu retorno à longa distância. Foram 4 meias, todas entre 1h50-1h51 haja vista o choque entre o tempo do Garmin e dos sites, além dos metros a mais percorridos por provas em pista larga ou má balizada.
KM 18. Foto por Esporte Mundo.
A Prefeitura de Salvador estreou de pé direito organizando uma maratona, mas com algumas coisas urgentes a serem corrigidas. Tivemos pontos ótimos como a transmissão ao vivo e a edição da inscrição via site. No certame, houve hidratação numa distância inferior a 3km entre as baias, sendo que a primeira veio logo com 1km... tinha água para dar e vender até pouco após as 4h30, quando saí de lá. As falhas tirariam o brilho do evento fosse o terceiro ou quarto ano dele, mas eu perdoo por ser sua estreia e também por ser organizada por pessoas sem experiência em provas de grande magnitude. Primeiramente as camisas ou os números de peito deveriam ser de cores diferentes; tanto nós corredores quanto os narradores, comentaristas e também batedores e juízes  não sabiam quem estava chegando (campeões dos 10 ou dos 21? Gente chegando da meia  maratona ou gente que abortou os 42 e decidiu apenas dar uma volta no percurso?). O fechamento parcial do percurso estreitou a pista a partir da hora que os primeiros corredores retornavam e a desaceleração para evitar colisões entre corredores fez diferença em nossos tempos e na concentração, pois ninguém vai escolher ligar o piloto automático, abaixar a cabeça e correr o risco de se bater de frente com corredores rápidos vindo do outro lado, uma vez que esse tipo de acidente só não acontece quando os corredores são do pelotão de elite, protegidos pelos batedores.

Time que faço parte há quatro anos. Foto por Esporte Mundo.
Queria cumprimentar os companheiros que voltaram de Buenos Aires e fizeram 42km novamente aqui. Além deles, minha admiração a todos os companheiros de equipe com vários pódios e a todos os outros que simplesmente completaram uma prova que começou fresca, mas terminou para lá de 30 graus e com rampas em momentos determinantes para um maratonista; já diz a lenda que é essa galera que passa das 4h correndo que é o maratonista a ser aplaudido: quem fez para duas e pouco ainda parece ter energia para ir até ali soltar uns 15km... falo isso principalmente tendo visto que o segundo colocado estava na sua terceira maratona em seis semanas.

E AGORA?

Tô clamando pela base e por 2018. Preciso sentar e decidir a/as maratonas para o ano que vem, além da nossa tradicional Wings for Life que será no RJ, saindo da difícil Brasília onde fomos todos frustrados esse ano por um clima duríssimo. Nos vemos por aí e basta eu correr que tem texto, podem ter certeza que esse espaço continua imparcial e 100% para o corredor que quer saber mais sobre a rotina de provas e treinos de mais um pangaré que ousa bastante e não tem mimimi para fazer as provas que deseja.

Comentários

  1. Perfeito sua avaliação sobre a prova de Salvador. Acompanhei um pouco de bicicleta e gostei de um modo geral e vou fazer parte da prova ano que vem. Sim porque teremos em 2018. Em breve será divulgado já data. Acho que vale um percurso com menos voltas. E intensidade mencionados no seu Post. Achei realmente confuso trechos com via da orla bloqueada e outros parcialmente. Mas como a organização é local isso certamente será melhorado. Parabéns pelas duas provas lindas que fez e pelos post que já fico ansiosamente esperando publicar.

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